TIMÓTEO CLIMA

Crítica: “Nós de Minas” e o triângulo

Banda ‘Nós de Minas’ - Teatro da Fundação Aperam Acesita | Foto: Letícia Barros

Minas Gerais é, com certeza, a terra mais criativa que se poderia existir no Brasil, país este, tão diverso e arteiro. O triângulo, o qual me refiro neste artigo, vem de muitas visões que tive, ao sentar-me em uma poltrona, no meio da plateia para me enraizar ainda mais no estado em que nasci. Ao som de vozes e acordes destilados de paixão, encontro de poesia, história e mineirice nas músicas interpretadas pela banda ‘Nós de Minas’.

Talvez eu seja suspeita de dizer qualquer palavra quando o assunto é este estado, mas ainda assim me atrevo a dizer. A banda, composta por 6 integrantes: Baixista, baterista, tecladista (que também toca sanfona), guitarrista, violonista e vocalista, tem suas particularidades mineiras (por natureza ou por naturalização) para compor um show completo, extravagante e sincero. O som vem do cuidado minucioso de Junio Henrique.

Na voz do jornalista e vocalista Jefferson Rocha (um jovem marcante e um tanto quanto apaixonado) as músicas mineiras ganham vida e vão pingando nos ouvidos do público presente e o que dissolve ali é pura arte. Não sei ao certo onde começa ou onde termina tamanha representação artística. Não sei quem comanda, mas sei que aquele palco pega fogo de chama transparente. Estes mineiros que estão debaixo das luzes coloridas do teatro e do cenário feito por Ademir Venil, têm por baixo de suas batas muito mais do que pele, carne e osso, nas suas veias correm o cafezim doce de Minas Gerais. Mas no caso de Jefferson Rocha, é vinho que ele degusta. Enquanto ele aprecia umas taças durante o show, penso no seguinte: Vinho combina com o quê? Com queijo! E o melhor queijo do mundo é de onde? Minas Gerais, lá de Serra da Canastra. Mas o curioso não são apenas estes detalhes, mas também, a composição do espetáculo, chamado: Nada será como antes, que me faz pensar em Minas Gerais, quanta riqueza. Essa banda é uma joia rara que não está escondida em mina. Está guardada pela proteção divina.

Para quem não sabe, ou quem nunca foi a um show, normalmente um show começa com o impacto da banda, do cantor e com músicas mais desaceleradas. Com o passar das faixas, é hora de surgir o ápice, que depois convida a despedida e após os aplausos finais você vai embora querendo mais. Mais uma música. Mais uma injeção de adrenalina. Mais vozes. Mais daquela energia poderosa que vem de pessoas fazendo pessoas soltarem fogos pelo miocárdio.

No ápice do show de ‘Nós de Minas’, Jefferson surge com seu triângulo, – instrumento musical de percussão direta, um clássico do estilo forró – o disparo de cada batida é totalmente simétrico, rítmico e exato. Ele ali, entregue a quase 6 minutos, batendo no mesmo tempo enquanto a banda se articula no tempo dele. Me fez refletir…o show em pleno sábado, dia 9 de julho, dentro de um teatro, espaço clássico, que recebe muitos atos musicais e dentre eles, orquestras onde originariamente o triângulo foi usado, – o menor instrumento de uma orquestra. Ele, Jefferson, batucava o triângulo, feito de ferro ou aço, na região mineira denominada Vale do Aço, capital do inox, chamada de Timóteo. Uma cidade do leste de Minas, que não é tão grande, mas que recebe a grandeza de 6 homens para fazer um som triangular: ajustado, afinado e de arrepiar.

Após o final desta faixa, é sentido que o fim do espetáculo está próximo. E você não saberá quando verá novamente um baixista como Guilherme Lopes, batendo cabelo enquanto toca as músicas ou remexe todos os músculos faciais enquanto dedilha as 4 cordas. Você não sabe quando vai ver de novo um baterista como Juninho ARs, com os olhos brilhando ao perceber o acerto de cada tom certo de cada instrumento e cada canto. Não sabe quando vai ver novamente, um tecladista, como Luciano Alvim, com jeitão de rockeiro, soltando a voz e o cabelo para cantar “Bem te vi, Bem te vi…”. Não sabe quando vai ver de novo um guitarrista como Luiz Alfredo, tímido, fazendo um solo ao som de Minas Gerais. Não sabe quando vai ver de novo, um rapaz no violão, como Ivenilton Amorim, de sorriso largo no rosto, cantando com as cifras e tocando com a alma. E por fim, não se sabe quando sentirá e ouvirá de novo, tudo isso e um cantor, como Jefferson Rocha, soltando versos de poesias entre os graves e agudos, e refrões enquanto aponta para a esposa na plateia e dedica todas as músicas que falam de amor para ela. Ele sorri com os olhos e nas entrelinhas eu pude ouvir ele dizendo para ela em pensamento: eu renasci…e eu renasci para te amar de novo, uai!

A nota que dou para o espetáculo: Nada será como antes, vai além de qualquer opinião técnica. Pouco me importa se uma nota não entrou ou se a frequência vocal falhou para sustentar algum tom. A nota é 10, pelos sentimentos que tive, durante cada segundo que passou. Se você não foi ainda, vá. Se você não sabe se deveria ir, eu sei, vá! Se você não sabe o que esperar, vá assim mesmo. E se você nunca ouviu música mineira, aí que você tem que ir mesmo, se você não sabe o que é um espetáculo. Vá também! Porque como o nome do show: Nada será como antes. Nada será. E se você for, nada será como antes. Nada será igual. Antes de você ir, era uma coisa. Depois que você for, será outra. E nada será como antes. Antes de ontem ou antes de agora. Então, vá. Para que tudo deixe e continue deixando de ser como antes.

E indo, sinta um triângulo de sentimentos: amor, renascimento e esperança. Bata palmas. Tem muito que ser aplaudido, ‘Nós de Minas’. Você passa a pertencer, não ao triângulo mineiro, mas passa a pertencer a um triângulo: você, a banda e o nós, que surge dessa junção. E igualzinho ao triângulo musical – que tem um corte que divide um dos encontros de suas quinas – ‘Nós de Minas’, produz e reproduz som. O que se passa no ouvido acaba igual a quina cortada, mas o que se passa no coração… continua!

*Letícia Barros é jornalista e musicista 

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