Por: Fábio Rocha/Itatiaia BH

Foto: Reprodução/Twitter

Quem é o responsável pela crise política instalada no Cruzeiro? Para a chapa ‘Força Azul’, os ex-membros do Conselho Fiscal, que renunciaram ao cargo, são culpados. O diretor-geral, Sérgio Nonato, disse que a diretoria disponibilizou os documentos solicitados, mas que um deles era confidencial e precisava da assinatura de quem requisitava. No entanto, ainda segundo o dirigente, os integrantes do conselho saíram.

Em contato com o site da Itatiaia, um dos ex-membros do Conselho Fiscal que renunciaram, Celso Luiz Chimbida, rebateu as críticas e disse que o órgão não teve acesso a nenhum documento e que o acordo de confidencialidade foi “uma desculpa” da diretoria para não apresentar.

Ainda segundo Chimbida, nenhuma outra diretoria do Cruzeiro exigia a assinatura como acordo de confidencialidade, citado por Serginho, para ter acesso aos documentos.

“Nunca houve isso. Criaram um memorando interno, um regimento, simplesmente cerceando todo o Conselho Fiscal em ter acesso a documentos. Acho um absurdo eu ser do órgão fiscalizador e não poder ver os documentos”, disse.

“Eu queria deixar claro que nós não tivemos acesso aos documentos que deram origem aos lançamentos. É isso que nós não tivemos acesso. Existe uma confusão de que nós tivemos acesso às contas. As contas, sim. Os lançamentos contábeis. Isso nós temos”, completou.

Chimbida explicou ainda que o Conselho Fiscal teve acesso somente ao relatório analítico, que é mais resumido. “A única coisa que foi fornecida ao Conselho Fiscal foi o relatório analítico das despesas. O que é um relatório analítico? Simplesmente você tem uma folha no computador que diz: tem a conta tanto que foi pago x. Aí você pega uma conta que está especificada ‘pagamentos a pessoas jurídicas diversas’: R$ 1 milhão. Mas eu preciso saber o que foi pago. A minha obrigação de Conselheiro Fiscal é ter acesso a essas informações. Pagou por uma empresa x tanto; pagou tanto de honorários a advogados. O que é esse objeto? O que foi feito? Então é essa a obrigação do Conselho Fiscal”, ressaltou.

O ex-membro do Conselho Fiscal celeste disparou contra a atual diretoria, a responsabilizando pela crise política. “Os criadores da crise não foram os conselheiros fiscais. Os criadores da crise foram os representantes da instituição (diretoria) que não forneceram informação”, finalizou.

Confira a entrevista completa:

Sérgio Nonato disse que a documentação chegou a ser entregue ao Conselho Fiscal, mas, por não assinarem o acordo de confidencialidade, não houve o repasse dos documentos. Qual a sua versão: 

Celso Luiz Chimbida: Há um desconhecimento de como funciona um Conselho Fiscal. Ele (Sérgio Nonato) deveria ter conhecimento do regimento interno do Conselho Fiscal, que simplesmente está previsto. Já a questão de confidencialidade, de o Conselho não poder dar nenhum tipo de publicidade, foi nada mais do que uma desculpa para não apresentarem os documentos.

Como as outras gestões lidavam com o pedido de documentos por parte do Conselho Fiscal?

CLC: Eu não participei (do Conselho Fiscal das outras gestões), mas meus pares participaram e nunca houve isso. (Os atuais gestores) criaram um memorando interno, um regimento, simplesmente cerceando todo o Conselho Fiscal em ter acesso a documentos. Acho um absurdo eu ser do órgão fiscalizador e não poder ver os documentos. Fizeram alegações em outros tempos de forma absurda: “eles querem ver contratos de jogadores”. Nós precisamos ver contratos de jogadores. Nós precisamos ver para quem foram pagos. Se o Cruzeiro tem vinte e tantos milhões que foram pagos para pessoas jurídicas, nós precisamos saber o objeto. Não pode ter um lançamento e nós simplesmente aceitarmos. “Ah, mas o lançamento foi feito de forma correta”. Ok! Mas aí fizeram outra afirmativa de que simplesmente vazamos informações para a imprensa e etc.

Chapa ‘Força Azul’ culpa ex-membros do Conselho Fiscal por crise; Chimbida rebate

CLC: Acho que (a declaração de vazamento) foi citada na entrevista do candidato ao Conselho (Fiscal), o (Paulo César) Pedrosa. Ele disse o seguinte: ‘fotografaram documentos, vazaram para a imprensa.’ Nós não tivemos acesso a nenhum contrato, nenhum documento. Como é que nós, do Conselho Fiscal, iríamos vazar? Eles mesmos estão reconhecendo que, simplesmente, não entregaram os documentos. A única coisa que foi fornecida ao Conselho Fiscal foram os relatórios analíticos das despesas. O que é um relatório analítico? Simplesmente você tem uma folha no computador que diz: tem a conta tanto que foi pago x. Aí você pega uma conta que está especificada ‘pagamentos a pessoas jurídicas diversas’: R$ 1 milhão. Mas eu preciso saber o que foi pago. A minha obrigação de Conselheiro Fiscal é ter acesso a essas informações. Pagou por uma empresa x tanto; pagou tanto de honorários a advogados. O que é esse objeto? O que foi feito? Então é essa a obrigação do Conselho Fiscal.

Não queríamos saber salário de jogador

CLC: Chegaram ao absurdo de dizerem: ‘ah, eles querem saber salário de jogador, e jogador não pode saber, porque tem risco de sequestro se divulgar’. A torcida, todo mundo sabe muito mais que Y, X, o que ganha, o que não ganha. Agora, para pegar e saber, a grande parte do que é pago aos atletas estava no (relatório) analítico e em nenhum momento se teve informação de que o Conselho Fiscal falou que atleta ganha A, que ganha B, que ganha C.

Neste contrato, a gente queria saber quanto foi pago de intermediação, o que está recebendo, de que forma está recebendo. Está recebendo de forma correta? Está sendo pago de forma correta? Então essa é que era a nossa função.

Conselho Fiscal precisa fazer uma análise completa, não só de salário de jogador

CLC: É preciso fazer uma análise como um todo. O salário é uma consequência. O que a gente precisa pegar para ver é se está dentro dos padrões. Se os pagamentos são inerentes. Porque você pode fazer o pagamento para uma empresa que o CNPJ tem ‘N’ atividades.

Por que os membros do Conselho Fiscal renunciaram?

CLC: O que aconteceu realmente que o Conselho Fiscal renunciou, os pontos principais: A BDO, que é uma das maiores empresas de auditoria contábeis do mundo, fez um trabalho em 2017 de confirmação que tinha erros também. Ela detectou (os erros) e foram feitos vários acertos. Isso foi feito. Ela fez uma auditoria no ano de 2018. Ela é uma empresa séria. O que aconteceu: simplesmente ela (a auditoria) entregou no dia 4 de abril as informações, onde poderia fazer alguns pequenos ajustes, ou não. Mas o que ocorreu efetivamente é que a (Diretoria) Executiva resolveu que, o que foi apontado, não servia para o Cruzeiro. Eles entenderam que tinham alguns apontamentos. E o Conselho Fiscal, em nenhum momento, teve acesso a isso. Como você tem uma auditoria que é feita, mas não é passada para o Conselho Fiscal?

Se eles tivessem dito que não iria nos abrir nenhum documento, porque tem uma empresa de auditoria, que poderia pegar e fazer uma pequena ressalva. Teve uma empresa que fez um trabalho de circularização, que confirmou despesas e fez um relatório que simplesmente não foi aceito pelo Executivo. Ninguém tem conhecimento do que tem neste relatório. Somente a Executiva. E isso (auditoria das contas de 2018 feita pela BDO) que foi solicitada pelo Conselho Fiscal.

‘Só tivemos acesso aos lançamentos contábeis’

CLC: Eu queria deixar claro que nós não tivemos acesso aos documentos que deram origem aos lançamentos. É isso que nós não tivemos acesso. Existe uma confusão de que nós tivemos acesso às contas. As contas, sim. Os lançamentos contábeis. Isso nós temos. Então nós sabemos que a folha de pagamento supera R$ 1 milhão. As despesas de pagamento para pessoas jurídicas subiram também para mais de R$ 1 milhão por mês. Isso a gente sabe! Não é pegar e afirmar se aprova ou não aprova. Nós precisamos ter acesso.

Conselho Fiscal queria o detalhamento das contas

CLC: O sistema estatutário do Cruzeiro é presidencialista. O presidente pode tudo dentro do que é inerente às atividades: ele pode pagar mais de R$ 4 milhões para o Itair por ano; ele pode pagar mais de R$ 2 milhões para o Sérgio Nonato por ano. Isso cabe a ele, é decisão dele. Agora, o que o Conselho queria saber eram os lançamentos, o que são os outros pagamentos. Os contratos mais detalhados. O que está se pagando. Qual o motivo de tanto pagamento de assessoria jurídica. Cada assessoria jurídica tem que ter um objeto.

Nós sabíamos, nós tivemos informação para quem foi pago. Agora eu não sabia o que significava esse pagamento. Nós fomos descobrir depois que tinha uma empresa que recebeu R$ 4 milhões, chamada IMM, que era do Itair Machado. Nós não sabíamos. Como iríamos adivinhar?

Outros funcionários tinham acesso aos documentos, mas o Conselho Fiscal não

CLC: Para mim, saíram tantas pessoas, demitiram tantas pessoas, que as informações foram levadas por essas pessoas. Eu mesmo escutei que funcionários tinham acesso às todas as informações. Um monte de pessoas tinha acesso e por que o Conselho Fiscal não tinha? Isso não existe em nenhuma empresa.

‘Criaram um conceito novo de compliance’

CLC: Se você pegar uma empresa que faturou mais de R$ 400 milhões, você tem um Conselho Fiscal que não tem acesso às informações. Isso aí é um caso único. Isso é um caso para ser estudado. Criaram um conceito novo de compliance. ‘Ah, isso nós não podemos dar informação’. Compliance exatamente o contrário, é você dar transparência a sua administração.

Eu até hoje me questiono: por que o Cruzeiro não deu as informações ao Conselho Fiscal? Qual o motivo? Você acha que eu simplesmente iria pegar e sair? Nós entregamos nossa carta renúncia porque ficamos o ano inteiro solicitando documentos. Ela foi aceita pela mesa diretora do conselho e nos foi questionado o porquê. Em todo momento nós não tornamos público os nossos motivos por uma preocupação de preservar a instituição.

Criador da crise é a diretoria

CLC: Os criadores da crise não foram os conselheiros fiscais. Os criadores da crise foram os representantes da instituição (diretoria) que não forneceram informação. Nós saímos e ficamos calados. Por que não apertaram o Zezé Perrella na época e perguntaram qual foi o verdadeiro motivo que o Conselho Fiscal renunciou? Nós tornamos pública a nossa renúncia a partir do momento em que o senhor Zezé Perrella simplesmente falou que nós somos covardes. Depois ele se retratou.

O conselho tentou e procurou de todas as formas fazer a obrigação dele. Já trabalhei em instituições que tinham um conselho. Participei por nove anos em conselhos, então eu sei o que precisava ser feito.

 
Compartilhar via: