Por: Itatiaia BH

 

Foto: Vinnicius Silva/Cruzeiro

 

O presidente do conselho deliberativo do Cruzeiro, Zezé Perrella, concedeu entrevista exclusiva nesta quinta-feira ao repórter da Itatiaia João Vítor Xavier para explicar o pedido de afastamento por três meses da diretoria do clube. Nessa quarta-feira (2), os conselheiros foram convocados para votar no dia 21 de outubro, em um hotel de Belo Horizonte, se a diretoria permanece ou deixa provisoriamente a administração do clube.

Caso haja o afastamento, deixariam o clube temporariamente o presidente, Wagner Pires de Sá, o vice-presidente administrativo, Hermínio Lemos, e o 2º vice-presidente, Ronaldo Granata.  Perrella afirma que, nesta situação, o vice-presidente de futebol, Itair Machado, que não tem cargo eletivo e foi contratado pela diretoria, também deixaria o clube.

Ouça a íntegra da entrevista com Zezé Perrella:

Para a retirada temporária do presidente e dos vices, são necessários 50% dos votos mais um. Conforme Perrella, a possibilidade de um de um afastamento definitivo foi cogitada, mas considerada inviável porque não seriam conseguidos o apoio necessário de dois terços de conselheiros e sócios.

Perrella declarou que há gestão temerária no Cruzeiro e incompetência, “para não falar coisas piores”, afirmou que houve o pagamento de R$ 24 milhões para intermediação na venda de jogadores e admitiu que pretende participar do futebol do clube, se o afastamento ocorrer.

Qual a pauta da reunião do conselho?

Hoje não temos acesso a nada no Cruzeiro. Os requerimentos e notificações que fiz ao presidente do Cruzeiro pedindo balancete, pedindo isso e aquilo, ele simplesmente não responde, ignora tudo, dificultando a ação do conselho deliberativo. Para você ter uma ideia, eles tiveram a ousadia de trocar as senhas dos computadores do conselho deliberativo, não tínhamos acesso. Eles têm acesso a tudo que o conselho faz. Mandaram nossos funcionários embora, que eram funcionários do Cruzeiro, e botaram funcionário de confiança deles para ser secretário do conselho. Eles querem fazer um cerco para um projeto de poder, acredito eu, de 20 anos.

E são várias barbaridades que se cometem. Um clube que fornece quase 10 mil ingressos gratuitos para um jogo, como vai ter sócio-torcedor? É um cambista ao contrário. Você compra ingresso de R$ 100 na porta do Mineirão por R$ 20. É nisso que esse pessoal transformou o Cruzeiro. Vamos pedir o impedimento temporário do presidente para que tenhamos a condição de fazer uma auditoria mais bem feita e ver o que realmente existe de irregular.

Solicitação de informações:

Há a informação de que a atual diretoria está acionando a Justiça para tentar proibir a assembleia.

Nós temos desembargadores e juízes no nosso conselho que têm entendimento diferente. Qualquer decisão pode ser mudada, mas não acreditamos que isso vai acontecer porque estamos agindo dentro do estatuto, inclusive o presidente terá a oportunidade de defesa no dia.

Se o afastamento for aprovado, quais seriam os dirigentes sairiam?

Seriam o presidente e os dois vices. O vice-presidente Hermínio está dizendo que não existe nada contra ele, mas ele tem participação ativa na gestão. Ele praticamente é o diretor-administrativo e, no mínimo, conivente com a situação. Quem não deve não teme. Eles estão dizendo que não tem nada de errado. Vamos averiguar. Eu já tenho dados alarmantes.

Gastaram R$ 24 milhões com a intermediação de jogadores. Quem o Cruzeiro vendeu para gerar uma despesa de R$ 24 milhões em um ano? O Cruzeiro pagou R$ 2,4 milhões para renovar o contrato do Fábio. Se alguém trabalhou para o Fábio, tem que ser remunerado pelo Fábio, que por sinal é um excelente atleta. Foram pagas intermediação para três empresas distintas para renovar o contrato de um goleiro que está no Cruzeiro há 15 anos. Toda vez que eu renovei o contrato do Fábio, eu tratava diretamente com ele ou com seu empresário, que era remunerado por ele.

O Cruzeiro tomou aqueles R$ 2 milhões emprestados e tinha 1 ano para dar a resposta se pagaria ou daria um atleta para pagar isso. Oito meses antes de vencer, o Cruzeiro comunicou que não tinha dinheiro para pagar e deu aquela lista toda de jogadores para o empresário, incluindo o menor.

Na época do [então presidente] Gilvan [de Pinho Tavares], o Mayke foi para o Palmeiras e estava com passe fixado. Era só o Palmeiras depositar o dinheiro e estava acertada a situação. Aparece um intermediário e recebe R$ 800 mil por essa operação. É no mínimo estranho.

O Cruzeiro pagou ao vice-presidente de futebol [Itair Machado] R$ 540 mil por serviços que ele prestou em outubro, novembro e dezembro, sendo que ele só assumiu em janeiro. O Gilvan deu a procuração a eles [atual diretoria] para cuidarem da transferência de poder [na transição entre as gestões], não para que se recebesse dinheiro.

O Cruzeiro gastou R$ 650 mil para comemorar a festa do título da Copa do Brasil. Um time que se diz quebrado. Pagando 100 e tantos mil para DJ. Que bagaço da laranja é esse?

E outra coisa, 51 conselheiros do Cruzeiro tiveram as mensalidades quitadas praticamente na semana da eleição. Para ter direito a voto, eles teriam que estar em dia. A maioria pagar por eles [diretoria]. No meu entendimento, houve compra de votos. Aquele conselho que colocamos lá para analisar algumas coisas, viu coisas ali. Não podemos falar houve roubo aqui ou ali, no mínimo uma gestão temerária, de incompetentes, para não falar coisas piores.

Também sairia o Itair?

A permanência dele é impossível, caso a gente tenha sucesso. O Itair, hoje, é o presidente de fato do Cruzeiro, ele manda em todas as áreas.

O afastamento seria de quanto tempo e quem assumiria?

O estatuto diz que assume o presidente do conselho. Eu já falei que não quero ser presidente do Cruzeiro. Eu me propus a ser presidente do conselho. Eu me propus ajudar. Desde que o Wagner entrou, eu me ofereci para ajudar. Eles nunca me ligaram para saber o que eu achava dessa ou daquela transferência de jogador.

Vamos pedir autorização do conselho para que a gente nomeie um conselho administrativo, que pode ser de três, cinco pessoas, vou analisar isso. Esse conselho vai tocar o dia a dia, alguém vai cuidar da parte financeira, alguém da administrativa, outro ajudar no futebol. Eu me proponho a ajuda no futebol, dando opiniões com a minha experiência, mas não quero ficar à frente disso.

O Gilvan não quer voltar a trabalhar com isso. Ele quer tirar essa turma. O Alvimar [Perrella, ex-presidente e irmão de Zezé] não topa nenhum tipo de cargo. Eu me propus a ajudar, vou montar esse comitê gestor. Eu vou ficar atento, como presidente do conselho, para que nenhum deles faça mais desmando. Acho que o caminho é procurar tirar essa gente, procurar os jogadores, se unir em prol do Cruzeiro e trabalhar para que o Cruzeiro não caia. Se o Cruzeiro cair, sai de uma receita de perto de R$ 100 milhões para menos de R$ 20 milhões. Fomos procurados por essa diretoria para tentar uma paz até que se passem esses três jogos, mas hoje não existe clima para isso. O Cruzeiro vai para 60 dias de salário atrasado, acho que quatro meses de direito de imagem atrasado, e jogador, se perder a confiança na diretoria, tira o pé.

Não temos esses nomes ainda, eu quero tirar esses nomes de um consenso. Podemos até trazer pessoas de fora, profissionais. E fazer um conselho consultivo, trazer grandes cruzeirenses para dar opinião, para reunir pelo menos uma vez na semana. Eu vou poder de tirar qualquer um deles [do conselho administrativo], como presidente do conselho, se a gente entender que não está fazendo um trabalho legal.

Quem administraria o futebol do Cruzeiro?

Temos vários cruzeirenses dispostos a abraçar essa causa e ajudar. Eu não tenho nomes ainda, mas são grades cruzeirenses, empresários. Eu vou tentar juntar esse pessoal para um lance de salvação do Cruzeiro. Não quero ter a responsabilidade de ser o dono do futebol, mas vou ajudar. É contratar um executivo competente para comandar o futebol e buscar dinheiro porque com essa turma aí não se consegue nada. O Cruzeiro não tem a menor credibilidade para buscar dinheiro em lugar nenhum, tem uma dívida com o BMG de R$ 95 milhões.

Qual a origem da dívida do clube?

Eu deixei uma dívida de R$ 117 milhões, R$ 80 milhões do Refis e poucos e R$ 20 milhões de compromissos para pagar naquele exercício. É uma dívida histórica, não foi comigo. Eu paguei coisas da época do Felício Brand. Paguei todos os jogadores antigos. Deixamos de vender o Montillo por R$ 50 milhões. O Lucas Silva, o Cruzeiro tinha 70% dele quando saí, e ele foi vendido por 13 milhões [de euros], são mais 9 milhões [de euros]. Só aí são R$ 95 milhões. Pagava praticamente a dívida inteira. Eu deixe o clube sem dívida, sem contar que eu deixei uma Toca II e o prédio administrativo sem tomar um real emprestado, sem falar nos 23 títulos que ganhamos. Eu tenho a minha consciência tranquila. O que me deixa estarrecido e triste é pensar que dediquei 17 anos da minha vida para ajudar a construir aquilo, tivemos grandes presidentes. Hoje eu vejo o Cruzeiro na mão dessa gente. É muito triste.

O Wagner pegou o Cruzeiro com uma dívida aproximada de R$ 450 milhões. O dirigente é mais importante do que o principal jogador porque, se o clube for mal tocado, não adianta você ter bom jogador.

O Gilvan foi eleito com o seu apoio, vocês romperam e hoje estariam próximos contra a atual diretoria. O Wagner não teve o seu apoio, mas se juntou para a sua eleição no conselho. O [ex-vice-presidente de futebol] Bruno Vicintin e o Gilvan, que são oposição ao Wagner, apoiaram ele. Como explicar isso?

É natural que isso aconteça porque são todos cruzeirenses, alguns mais competentes e outros menos, mas se tiver de juntar com qualquer um para mudar essa situação, podemos divergir, mas uma coisa temos em comum, somos todos cruzeirenses. Nunca tive notícia de que o Wagner tenha assistido a uma partida de futebol até ser presidente. Eu fiquei lá 17 anos e nunca vi o Wagner no estádio. Para gerir um time de futebol, você precisa no mínimo gostar de futebol.]

O seu filho, Gustavo Perrella, participou da atual gestão. Você se arrepende?

Eu me arrependo porque o Gustavo participou com o intuito de ajudar. E foi pedido por eles para que o Gustavo participasse. Eu pensei ‘vai porque você lá dentro pelo menos eu vou saber o que está acontecendo’. O Gustavo ficou lá 60 dias e ficou pasmo. ‘Pai, eu não vou continuar aqui. Primeiro que o Cruzeiro não tem condição de pagar salário para ninguém e aqui ninguém manda, é terra de ninguém’. Ele se prontificou a ficar 90 dias de experiência porque não precisa de emprego, cuida dos negócios da nossa família. Eu acho mais do que normal do que ele tivesse remuneração, não remuneração desses caras, esse valores absurdos.

Ameaças

O diretor de comunicação do Cruzeiro, Valdir Barbosa, afirmou em entrevista exclusiva à Itatiaia nesta quinta-feira que conselheiros têm recebido ameaças após dados pessoais vazarem. “Existem pessoas que fora desse contexto trabalham com uma irresponsabilidade absoluta. Vários telefones, endereços e até CPF de conselheiros, que são pessoas corretas, estão sendo atingidos. Junto a eles estão os familiares deles, que recebem telefonemas ameaçadores de todas as partes. O direito de manifestação é legítimo, porém tem que preservar pelo menos os familiares das pessoas que, às vezes, têm um envolvimento indireto nessa situação e mal sabem o que está acontecendo”, declarou.

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