Foto: Alan Santos/Presidência da República

O ex-juiz federal Sergio Moro não é mais ministro da Justiça e Segurança Pública. Ele deixou o cargo nesta sexta-feira, após o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) demitir o diretor-geral da Polícia Federal (PF), Maurício Valeixo, homem de confiança de Moro.

É o segundo ministro popular a deixar o governo neste mês, em meio à pandemia do novo coronavírus que já matou mais de 3,3 mil brasileiros. No dia 16, Mandetta foi exonerado do Ministério da Saúde após discordância com o posicionamento do presidente sobre como lidar com a pandemia.

A possível saída de Moro começou a ser noticiada nessa quinta-feira (23), quando ele foi avisado por Bolsonaro sobre a troca no comando da PF. O ministro avisou ao presidente que, com a saída do diretor-geral, não ficaria no governo, mas a exoneração de Valeixo foi publicada no Diário Oficial desta sexta-feira.

Moro deixou a carreira de juiz para ser superministro do governo Bolsonaro, o que, na prática, não ocorreu. A promessa do presidente de autonomia foi descumprida, e o Moro passou a colecionar derrotas. Mesmo assim, o ministro se tornou o mais popular do governo.

Pesquisa realizada no início de dezembro de 2019 mostrou que 53% da população avaliava como ótima/boa a gestão do ex-juiz no ministério. Outros 23% a consideravam regular, e 21% ruim/péssima. Bolsonaro tinha números mais modestos, com 30% de ótimo/bom, 32% de regular e 36% de ruim/péssimo.

PF

Um dos mais cotados a assumir o comando da PF é o atual diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), Alexandre Ramagem. Tradicionalmente, a escolha é feita pelo ministro da Justiça, mas Bolsonaro é quem deve indicá-lo.

Interlocutores de Valeixo dizem que a tentativa de substituí-lo ocorre desde o início do ano. Essa troca não tem a ver com a briga pelo comando da PF ocorrida ano passado entre o presidente e Moro. Em agosto, Bolsonaro tentou antecipar a saída do superintendente da corporação no Rio de Janeiro, mas recuou diante da repercussão negativa.

Valeixo se reuniu nessa quinta-feira (23) com os 27 superintendentes regionais e delegados federais que ocupam diretorias estratégicas por videoconferência.

Repercussão

Ex-integrante da força-tarefa da Operação Lava Jato em Curitiba, Carlos Fernando dos Santos Lima atacou o presidente Bolsonaro após a divulgação da notícia de que o ministro poderia deixar o governo. Santos Lima, que trabalhou com Moro também no Caso Banestado, afirmou que Bolsonaro nunca foi “real apoiador do combate à corrupção”. “Moro deve sair. Bolsonaro não é correto, não tem palavra, deixou o ministro sem qualquer apoio no Congresso tanto nas medidas contra a corrupção quanto durante o episódio criminoso da Intercept”, escreveu o procurador aposentado.

Associações que representam policiais federais também reagiram à troca. “Infelizmente, nós vamos viver assim enquanto não aprovar o mandato (para o chefe da PF)”, afirmou o presidente da Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal, Evandir Felix Paiva. Segundo Paiva, esse tipo de problema seria menor se o Congresso Nacional tivesse aprovado projetos sobre autonomia da PF.

Em nota, a Federação Nacional dos Delegados de Polícia Federal (Fenadepol) lembra que Valeixo é o terceiro diretor-geral da PF nos últimos três anos. “A cada troca ou menção à substituição, uma crise institucional se instala”, diz o texto, citando reflexos no combate à corrupção.

O presidente da Associação Nacional dos Peritos Criminais Federais (APCF), Marcos Camargo, disse que o presidente não pode ter “carta branca para destituir, sem critérios claros, os ocupantes das funções”.

(Itatiaia BH)

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